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segunda-feira, 9 de abril de 2018

- A árvore

Colaboração do amigo Sérgio Cunha
HISTORIAS DA INFANCIA
A ARVORE:
Em alemão se diz, Baum. No meio do caminho tinha uma arvore...tinha uma arvore no meio do caminho.
Na década de 50/60, quando éramos crianças (Kinder), quase não existia brinquedos manufaturados. Não na mesma proporção igual aos dias de hoje. Existiam bicicletas com três rodinhas, bem rudimentares, bonecas (Puppen) bem simples, com cabeça de plástico ou porcelana, gaitas de boca, alguns bichinhos de pelúcia, bem rudimentares, bilboquê, peão, bolinhas de gude, etc.
Certa vez, de tanto pedir, ganhei uma bola de futebol, no natal. Meus pais esforçaram-se para dar-me a bola, porém, devido à falta de conhecimento do meu pai, que nada entendia de futebol (Fußball), pois ele nem tinha tempo para aprender alguma coisa sobre o esporte, trabalhando duramente, a bola que ganhei mais parecia de futebol americano. Ela era oval. Colocava ela em uma posição, ela girava para outra.
Acervo Adalberto Day
Entretanto jogávamos futebol de qualquer jeito. Ora com a bola de um, ora com bola de outro e assim nos divertíamos. Brincávamos de “Pega-Pega”, de “Esconde-Esconde”. Brincávamos de “Mocinho e Bandido e Índio”. Brincávamos também de Tarzan, imitando as cenas das revistas Gibi e um pouco mais tarde, reproduzindo as cenas dos filmes que já passavam nas tardes de matinê no Cine Garcia. As meninas (Mädchen) brincavam na maioria das vezes de boneca, de casinha. Mas, as vezes, reunia-se o grupo todo, meninos e meninas, para brincar de Pega-Pega e Esconde-Esconde.
Nos divertíamos muito brincando de índio e de Tarzan, naquelas matas e capoeiras do Beco Tallmann, principalmente no morro (Hügel) apelidado como “morro do Tallmann”, hoje morro do Centenário, chamado assim, devido ao clube de mesmo nome. Naquela época, a passagem do Beco Tallmann para o bairro Zendron era muito primitiva. Passava-se somente a pé, de bicicleta ou de carroça. Ao chegar lá embaixo do morro, próximo do Centenário, havia uma porteira que abría-se permitindo a passagem para o bairro Zendron. Hoje em dia está a rua toda asfaltada.
Fazíamos cabanas com paus e folhas (Blätter) das arvores. Chegamos a fazer cabana na árvore, isso raramente, porque o trabalho requeria conhecimento e empenho. Brincávamos com os cipós (Reben) que pendiam de algumas arvores.
Naquele ponto (Punkt) mais alto do morro do Centenário e bem na beirada do ribeirão Garcia, tinha uma grande arvore, da qual pendia um cipó bem grosso, com uns 3 centímetros de espessura. Como o morro era inclinado em direção (Richtung) ao ribeirão, subíamos até um barranquinho mais alto, segurávamos no cipó e balançávamos em direção ao ribeirão até bater com os pés na arvore.
Um certo dia, brincando próximos daquela área, passamos pela arvore e decidimos cada um balançar uma vez antes de ir para casa. Todos balançaram divertidamente. Eu fui o último. Peguei o cipó, respirei fundo (Tief) e me lancei contra a arvore. La fui eu. Pernas duras e pés preparados para amortecer o impacto. Quando meus pés tocaram a arvore, minhas pernas (Beine) se abriram.
Geeente! Vocês já assistiram um daqueles documentários sobre lobos? Quando o lobo (Wolf) levanta a cabeça em direção a lua e começa a uivar? “Aaauuuuuu......uuuuuu...uuuuuu! No final, o lobo ainda dá aquelas paradinhas para fazer:   uuu...uuu...uuu! Éééé, véio, foi uma  trauletada. Sentei, me encolhi, “tentando” respirar fundo até “voltar a terra”. Ninguém viu, pois todos os guris já haviam corrido morro abaixo em direção as suas casas.
Felizmente e novamente aqui, quero agradecer a presença sempre constante do Anjo da Guarda em minha vida. Tudo terminou bem. Casei-me, minhas filhas estão aí, meus genros, meus netos e neta. E vamos que vamos! Ufa!
Sergio Cunha – 04/03/2018
Reprodução

terça-feira, 3 de abril de 2018

- Balas "Zequinha"

Blumenau e as Balas e figurinhas “ Zequinha”
Faço esta postagem pois fez parte da minha infância e de muitos blumenauenses. Assim como eu muita gente colecionou as belas figurinhas do “Zequinha”
VOCÊ CONHECE O ZEQUINHA?, por Anthony Leahy
A fábrica de doces "A Brandinha" foi fundada na década de 1920 por quatro irmãos poloneses - Francisco, João, Antônio e Eduardo Sobania - que idealizaram e lançaram, em 1929, as Balas Zequinha, onde as balas eram embrulhadas em um papel com o desenho de um palhaço exercendo as mais diversas profissões e situações.
Inicialmente foi desenhada uma série de 30 figurinhas e posteriormente expandido até 50, pelo desenhista Alberto Thiele da Impressora Paranaense, na forma de palhaço careca, de boca aumentada pela maquiagem, gravata borboleta e sapatos tipo lancha. Virou figurinha-papel de bala, sob inspiração das balas Piolim, que eram embrulhadas em caricaturas do palhaço paulista Piolim. Somente quando Paulo Carlos Rohrbach assume a responsabilidade do desenho é que a coleção passa a ter 200 figurinhas.
Em 1948 foi vendida aos irmãos Francheschi (Franceschi & Cia Ltda, de Romar e Radi Franceschi) e, posteriormente, em 1955, assume a fábrica Elisio Gabardo e Plácido Massochetto.
Em 1967 Zigmundo Zavatski compra o direito da marca e a relança. Em 1986, a J. J. Promoções, de Jeferson Zavatski e João Iensen, recomeça a explorar a marca "Balas Zequinha", oferecendo pacotes de figurinhas com as figurinhas do Zequinha junto com doces, já para preencher álbum próprio.
Apesar dos diversos proprietários, o personagem Zequinha - o mais curitibano de todos os piás - resistiu ao tempo tornando-se um dos grandes ícones paranaense do Século XX.
Em 1979 , o Governo do Paraná lança a campanha do clube do Zequinha , para melhorar a arrecadação de ICM, com algumas figuras já adaptadas aos novos tempos (ecologia, trânsito, etc). Foi feita uma releitura do visual do personagem, mordernizando-o, mas sem ofender o conceito original.

Zequinha ensinou às gerações de piás e gurias paranaenses a contar até 200 e gerou inesquecíveis rodadas de jogo do bafo e um sem número de trocas das figurinhas repetidas na porta dos cinemas e no recreio das escolas.
As Balas Zequinha marcaram de forma indelével a memória de gerações de paranaenses. Todos se recordam, nitidamente, do afã de obter os 200 números (a número 200 era “Zequinha distribuindo”) para ganhar o prêmio máximo, a bicicleta, ou de descobrir, no verso do desenho, o carimbo e o selo da Receita Federal dando direito aos prêmios, entre os quais bolas de futebol e bonecas, lanternas elétricas e porta-níquéis

Das Balas Zequinhas sobraram os doces. 
Onde esteve, onde estará o Zéquinha da infância curitibana?
E quem fez parte do “Clube do Zequinha”? 
Zequinha nasceu em 1929. Foi criado pelo desenhista Alberto Thiele, da Impressora Paranaense, na forma de palhaço careca, de boca aumentada pela maquiagem, gravata borboleta e sapatos tipo lancha.
Virou figurinha-papel de bala, sob inspiração da balas Piolim, que eram embrulhadas em caricaturas do palhaço paulista Piolim.
 
Um dos fundadores da fábrica de doces "A Brandinha", Francisco Sobania, teve a ideia de utilizar os desenhos como papéis de bala, encomendando uma coleção inicial de 30 figurinhas à gráfica. Thiele desenhou esta série inicial e a expandiu até o número 50. Depois a coleção passou a ter 200 figurinhas, sendo as restantes desenhadas por Paulo Carlos Rohrbach.
  
Em 1948, a ideia foi comprada pela firma Irmãos Franceschi & Cia Ltda, de Romar e Radi Franceschi, irmãos que mantiveram a coleção e a patente até 1955. As figurinhas marcaram a infância curitibana, no afã de obter os 200 números para ganhar o prêmio máximo, a bicicleta, ou de descobrir, no verso do desenho, o carimbo - e o selo da Receita Federal - dando direito aos prêmios, entre os quais bolas de futebol e bonecas, lanternas elétricas e porta-niqueis.
 As figurinhas - e a de n.º 200 era "Zequinha distribuindo" - embrulhavam balas de açúcar com essência de frutas, de formato quadrado. A embalagem era feita à mão, por 75 moças, e o consumo exigia uma produção diária de 1200 quilos de balas, ou 360 mil balas, distribuídas em todo o Estado do Paraná. As balas eram distribuídas em latas com capacidade para 100 quilos. A cada tonelada era incluída uma bala embrulhada na figurinha n.º 200. 
Quando ficava difícil se livrar dos números duplos, nas trocas entre os piás e no jogo do bafo, havia as matinadas no Cine Curitiba, onde os colecionadores trocavam 100 duplas por um prêmio. Conforme testemunho de Ronei Franceschi, filho de Romar, "essas matinadas serviam para tirar de circulação figurinhas muito repetidas. Eram o 'Banco Central' da época".
 Dos Franceschi, a marca passou à firma E. J. Gabardo e Massocheto. Comparando os desenhos das várias séries, Rohrbach diz que "da primeira série dos Irmãos Sobania à última, de Gabardo e Massocheto, houve poucas modificações. Na figurinha "Na ressaca" dos Sobania, Zequinha usa óculos, que desaparecem na versão Franceschi. A maior mudança foi o sorriso do Zequinha nas edições Gabardo e Massocheto. Até então, a personagem era "séria". Também se americanizou o "Quininha Papai Noel", nesta edição". 
 
Em 1967, a marca de Gabardo e Massocheto é vendida a Zigmundo Zavatski, que relança no mercado as figurinhas das Balas Zequinha. Em 1979, o Governo do Paraná lança a campanha do "Clube do Zequinha", através da Secretaria de Finanças, para melhorar a arrecadação de ICM. Alguns temas foram adaptados ao tempo, como preocupação ecológica, educação de trânsito etc. A personagem ganhou novo aspecto visual, tentando conservar algumas características originais. 
 Em 1986, a J. J. Promoções, de Jeferson Zavatski e João Iensen, recomeçou a explorar a marca "Balas Zequinha", mantendo pacotes de figurinhas com a personagem, anexados a doces, para preencher álbum próprio.
 Zequinha, jamais envelhece na memória curitibana, ensinou gerações de piás e gurias a contar até 200 mais depressa do que a escola conseguia ensinar. Marcou inesquecíveis rodadas de jogo do bafo e um sem número de trocas das figurinhas repetidas, na porta do cinema e no recreio da escola. Ensinou aos curitibanos os ofícios. É parte fundamental no aprendizado do ofício de ser curitibano. 
Já não eram mais balas, mas era uma sensação doce mesmo assim, colecionar aquela tão íntima e só curitibana mania.
 
Hoje podemos encontrar álbuns quase completos vendidos em sites, por verdadeiras mixarias, e que graça tem comprar um álbum completo ou semicompleto; o que realmente valia era a diversão de montar um, com seu esforço, dia a dia, a surpresa que vinha num envelope fechado, as brincadeiras e trocas entre os amigos... é a mesma coisa que construir um sonho com suas próprias mãos, ou, talvez, montar um desenho animado pré-definido, porém o sabor é puramente infantil e íntimo, daquela época.
 
Para os que não vivenciaram isso naquela época, certamente, não perceberão a importância de uma brincadeira que não tem barulho de laser, nem destruição, nem sangue, nem animação gráfica, mas que nos tornavam semente de uma geração apaixonada por nossa cidade
“Zequinha” virou relíquia para colecionadores
 

  Campanha criada pelo Governo do Paraná, denominada “clube do Zequinha”, que trazia o personagem de um palhaço intensificando a cultura do estado, fez o álbum e as figurinhas virarem raridade após 27 anos 
    Com o objetivo de melhorar a arrecadação do ICM (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias), o Governo do Estado do Paraná lançou uma campanha do Clube do Zequinha. Era necessário ter Cr$ 1.000,00 (mil cruzeiros) em notas fiscais, para trocá-las por um envelope com 20 figurinhas.
  O personagem principal, um palhaço chamado Zequinha, nasceu, originalmente, no ano de 1929 em uma fábrica de doces, onde as balas, feitas apenas de “açúcar e água” como descreveu um colecionador, eram embrulhadas num papel com o desenho de Zequinha exercendo inúmeras profissões e apresentando-se em várias situações.
 
  Quando a campanha foi lançada, algumas mudanças na parte estética do personagem foram feitas. Figurinhas foram excluídas e outras, adaptadas de acordo com o contexto paranaense. Segundo dados do Instituto Memória, a maioria das crianças aprenderam a contar até 200 através da diversão em colecionar as figurinhas do palhaço e completar seu álbum. Trocas na porta das escolas e jogos de bafo, também eram comuns.

  Criação  
  Zeno José Otto, profissional na área de marketing e publicidade e propaganda, criou a agência P.A.Z, localizada em Curitiba. Estando à frente do atendimento, planejamento, diretoria de criação e diretoria de arte, Otto participou do ICM do Zequinha, na década de 80. Conforme ele mesmo descreve, a campanha “foi o maior sucesso de propaganda governamental do Paraná”.

sábado, 31 de março de 2018

- Feliz Páscoa

Colaboração do amigo Sérgio Cunha
HISTORIAS DA INFÂNCIA
Reprodução

FELIZ PÁSCOA:
Fröhliche Ostern, se fala em alemão para Feliz Páscoa. Farei uma breve descrição, para aquelas pessoas que conhecem aquela região hoje, saberem como ela era antigamente. A época era por volta de 1963. Ali onde é a Cooper Garcia, não tinha nada (veja foto abaixo). Somente um barranco, no topo desse barranco tinha uma árvore bem grande, que pendia sobre a rua. Na beirada do barranco, tinha uma cerca de arame farpado para evitar que pessoas e também cavalos, vacas que pastavam, viessem a cair.
Morávamos na rua Emílio Tallmann. Nosso caminho até a Igreja (Kirche) Nossa Senhora da Glória, era percorrer essa rua, passar na ponte que existia ali ao lado da antiga Cooperativa da Empresa Industrial Garcia, passar no meio da fábrica até na Praça, aí virar a esquerda em direção à rua da Glória e chegar na igreja.
Estávamos indo a missa de domingo de Páscoa, de manhã bem cedinho, eu e a tia Martha. A gente sempre saía ali pelas 5:30, para não chegar atrasados. A missa começava ás 6 horas. Nesses dias próximos da Páscoa e nesse horário, ainda era escurinho e também friozinho e o clima anunciava que logo entraríamos no inverno (Wintera).
Exatamente quando estávamos passando ali, naquele domingo, em frente da grande árvore (grosse Baum), sentimos que passou por nós tirando um “fininho” e quase nos atropelou, um vulto do tamanho de um homem, com bastante velocidade, causando vento ao passar e também aquele “arrepio na espinha”. Perguntamos um ao outro: O que foi isso? Não sei! Olhamos para trás, para ver melhor, e o vulto já estava voltando em nossa direção. Demos uma corridinha para evitar que colidisse conosco. Paramos, aguçamos nossa visão e percebemos com dificuldade que o vulto estava pendurado na arvore por uma corda.
Em seguida ouvimos gargalhadas vindas do barranco, onde estava a arvore. Uuufa, era um Judas! Um grupo de jovens, moleques, haviam feito um boneco de pano que representava Judas e o penduraram na arvore para assustar quem passasse, e se deleitavam dando gargalhadas pelo nosso susto e aflição.
Apressamos o passo em direção a igreja, pois o padre João costumava ser pontual. Quando voltamos para casa, ao passar pelo local, vimos que o boneco tinha sido queimado, destroçado e jazia espalhado pelas beiradas da estrada.
Feliz Páscoa a todos
Sergio Cunha - 09/02/2018
Rua da Glória onde estava a árvore, logo depois onde é a atual Cooper
Foto: Acervo Adalberto Day

quinta-feira, 22 de março de 2018

- Historietas do Garcia

Em historietas do nosso cotidiano apresento textos enviados pelo amigo Sérgio Cunha, sobre sua infância em geral, vale a pena a leitura e sentir-se inserido nos belos relatos.
Por Sérgio Cunha
O PEQUENO PRÍNCIPE:
Pequeno Príncipe em alemão se fala Kleiner Prinz. Nos idos de 1957, a comunidade da Vila e Rua da Gloria, no Bem Aventurado Reino do Garcia, com a finalidade de angariar fundos para as obras da Igreja Nossa Senhora da Glória e do Grupo Escolar São José, tiveram a ideia de promover um concurso infantil de Rei e Príncipe (König uns Prinz). Não sei porque não fizeram um concurso de Rainha e Princesa ou de Miss. Talvez porque a safra de meninas daquele ano não estava a altura de representar tal título.
A regra para a classificação dos eleitos consistia na venda de votos. A família que vendesse a maior quantidade de votos para a comunidade elegeria o reizinho e o príncipe. O Jorge Salvador Rodrigues foi indicado para representar a Família Rodrigues. Eu fui indicado para representar a Família dos Santos. Participaram também outros meninos indicados para representar suas respectivas famílias. A campanha foi acirrada.
Minha família, meus tios, minhas tias, a Martha, a Helena e a Evanilde, batalharam arduamente na venda dos votos. Vendiam na rua, nas casas, na empresa onde trabalhavam. O resultado foi apresentado no dia da Festa Anual da Igreja N. Senhora da Gloria. E o reizinho eleito foi...? Vocês estão pensando que escrevi esse texto para dizer que fui o reizinho eleito não é mesmo? Mas não fui eu não. O Reizinho eleito foi o Jorge Salvador Rodrigues e eu fiquei em segundo lugar como 1• Príncipe.
                  Foto: Acervo Sergio Cunha  

O PAPAI NOEL:
Aprendendo Alemão: SÃO NICOLAU, KNECHT RUPRECHT e SCHMUTZLI. São Nicolau é o Papai Noel. Na Alemanha o ajudante do São Nicolau é o Knecht Ruprecht. Na Suíça o ajudante do São Nicolau é o Schmutzli. Até a década de 60, aqui em Blumenau, conhecíamos somente o NICOLAU, que tinha roupas e "maquiagem" bem feias. E nem se falava São Nicolau. Era só Nicolau mesmo. Depois de 1960, com a inauguração da Loja HM é que conhecemos o PAPAI NOEL.
Nessa época eu tinha uns 10/11 anos. Estávamos a uma semana do Natal. Como o Nicolau era bem feio, falei pra minha mãe: Mãe, hoje assim que escurecer vou me vestir de Nicolau e dar um susto nos meninos do Sr. Joao Barulho. Ele era um vizinho que todos chamavam por esse apelido, até hoje não sei porque, e tinha 3 meninos com 5 a 9 anos mais ou menos. E eu era muito corajoso. Nooossa, como eu era corajoso!
Peguei um pacote desses de papel pardo, desses de padaria, fiz pequenos buracos para olhos, nariz e boca, colei algodão para imitar bigode, sobrancelhas e barba, vesti um casaco e calça velha. Peguei também um saco de aniagem para carregar nas costas e uma vara como bengala. A boquinha da noite, logo que escureceu, vesti os trajes e disse pra mãe: eu já vou. Ela olhou pra mim, achou engraçado, riu e disse: Tá bom, Mãããe,pode ir. Cuidado! Saí pela porta de traz da nossa casa, caminhei uns 20 metros pela lateral da casa para chegar na rua em frente.
Ao chegar na rua, iria para a esquerda, mais uns 100 metros até chegar onde estavam as crianças, que nessa época, início de verão, calor, brincavam até mais tarde em frente de casa. Abri o portãozinho, estiquei o pescoço para ver como estava o caminho. Raapaaiz, a 5 metros de mim, vindo na minha direção, vi o maior Nicolau que meus olhos já enxergaram. Ele tinha uns 2 metros de altura. O bicho era graaande. Engatei a primeira e saí cantando pneus numa disparada para a porta dos fundos, mais rápido do que o Papa-léguas.
Quando cheguei à porta, estava fechada por dentro. Aumentou o desespero. É agora que o bicho me pega! Dei socos com as duas mãos na porta, gritando pela mãe. Depois de eternos 15 segundos ela abriu. Joguei- me para dentro. Branco como vela. O coração querendo sair pela boca. Ela perguntou: O que foi guri? Na medida do possível fui explicando. Ela disse: Aaah, querias assustar os meninos é! Veja no que deu! Bem feito! Cara, não morri porque não era hora.  
 Sergio Cunha - 28/12/2017
A GEADA:
Geada em alemão se diz Frost. O clima da terra está mesmo esquentando. Lembro-me de que o inverno nas décadas de 50/60 era bem mais frio do que atualmente. Tinha na época 5 para 6 anos e minha primeira irmã aproximadamente 1 ano. Morávamos todos juntos na casa de minha avó, na Vila Operária, próximo da Igreja N. S. da Glória. O vovô havia falecido quando eu tinha 6 meses. Moravam conosco também minhas tias e tios que ainda eram solteiros (Singles). Ao todo éramos umas 10 pessoas. A casa era grande, tinha cerca de 160 metros quadrados, com dois pavimentos e somente no pavimento superior tinha quatro quartos.
O pai e a mãe haviam comprado um terreno no Bêco Tallmann e estavam terminando de construir uma pequena casa para morarmos. O Bêco Tallmann era bêco (Gasse) porque não havia ainda ligação com a rua Progresso ( em sua parte total). Tanto meu pai como minha mãe trabalhavam nas indústrias têxteis da região, industrias que estavam formando o pólo têxtil de Santa Catarina. As fábricas, como todos falavam, estavam pertinho de casa, distando cerca de 1,5 quilômetros.
Como os dois trabalhavam, na nova casa não teria quem ficasse tomando conta de mim e minha irmã durante o dia. Então meu pai falou com seu irmão João Paulo que cedeu uma de suas filhas, portanto nossa prima (Cousin , pronuncia-se “cusan”), para tomar conta de nós provisoriamente até que contratassem uma “babá”. A prima era a Azenir que tinha na época uns 12/13 anos de idade. Ela veio então para a casa da vó, para fazer um “estágio” e ter as primeiras noções de como manter os nossos limites de criança. Ela cuidava de nós com muita responsabilidade, mas também brincávamos muito, pois era muito divertida.
Era época de inverno aqui no sul e esse, deu sinal que seria bastante rigoroso. Tinha chovido naquela semana e começava a soprar o vento “minuano”. Quando soprava o minuano, eram vários dias de ventania forte. As folhas das bananeiras de tanto tremular com o vento forte (Starker Wind), rachavam. Ficavam todas em tirinhas, esfiapadas. Hoje em dia não se vê mais isso.
Um desses dias, a tardinha, estava bem frio e ventava, anunciando que a próxima madrugada seria congelante. Os adultos comentavam entre si que ao amanhecer o dia, com certeza teríamos geada. Então a prima falou: Já que amanhã vai ter geada, vamos fazer uma experiência. Vamos colocar no pátio (Hinterhof) uma pequena bacia de alumínio com água e quando a gente acordar, vamos ver que na bacia terá uma camada de gelo.
Nós, as crianças da casa, ficamos muito entusiasmadas (begeistert) e interessadas. Mas como assim, gelo! O que é gelo? Ela que já frequentava a escola disse: Gelo é quando a água fica dura. Como que a água irá ficar dura? Nunca tínhamos visto gelo. Geladeira (Kühlschrank) então, nem pensar. Não existia ainda. Refrigerante também não existia, só “Capilé”, que era groselha e se misturava com água.
O que surgiu logo a seguir foi o “Gasosão”, que era tipo groselha gaseificada. Cerveja já existia, mas para se degustar essas bebidas mais frescas, colocava-se as garrafas dentro de um balde (Eimer) ou tanque e cobria-se com água fresquinha tirada de algum poço profundo. Todas as casas tinham poço. Quem morava perto de algum córrego (Bach) raso de água cristalina, colocava as garrafas no fundo do córrego para que refrescassem.
Bem, vamos ver se essa geada vem ou não. Depois de muita conversa e explicações (Erklärungen) fomos tentar dormir, o que foi muito demorado devido à grande ansiedade. Ao amanhecer, bem cedinho, aos primeiros claros do sol, a prima nos acordou e fomos lá no pátio ver o que tinha acontecido. Ficamos com os olhos (Augen) arregalados quando ela pegou da bacia uma rodela de “água dura” que tinha aí uns três milímetros de espessura. Ávidos para tocar aquela novidade, começamos a cutucar com os dedos e logo a rodela de água se foi quebrando e cada um pegou um pedaço e correu levar para um adulto ver a novidade que aos poucos foi derretendo e desaparecendo. Assim iniciamos mais um dia de curiosidades (Kuriositäten) e brincadeiras no nosso pequeno e agradável mundo infantil.
Sergio Cunha - 02/02/2018
Foto: Fachada Casa da Vovó Maria.
TANTE E ONKEL:
Em alemão, Tio se fala "Onkel" e Tia se fala "Tante". Quando eu era criança, lá no "Reino do Garcia", pelos idos de 59/60, numa certa tarde vieram nos visitar minha avó Maria e duas irmãs dela, a tia Olívia e a tia Luíza, portanto, as tias de minha mãe. Vieram fazer uma visita de cortesia e também para ver nossa nova casa, já que tínhamos nos mudado recentemente da Rua da Gloria para o Beco Tallmann que naquela época nem tinha sido promovido a categoria de rua ainda.
A tia Luíza estava fazendo uma tournée e veio lá do Arraial do Ouro em Gaspar, para visitar suas irmãs no Garcia, em Blumenau. A tia Olívia veio da rua Antônio Zendron no bairro  (Valparaíso). Encontraram-se na casa da vovó na rua da Glória. Dali saíram as três senhoras em direção a nossa casa no Beco Tallmann, num dia de verão, que mais quente era bobagem, caminhando, com sombrinhas para se abrigar do sol implacável e com aqueles seus tradicionais vestidos longos. Verdadeira cena dantesca.
Elas chegaram, a gente foi cumprimentando, como de praxe, boa educação, benção vó, benção tias, sentaram-se e dá-lhe conversar. Mas notei que a minha mãe se dirigia as tias chamando-as de "Tanta". Tanta Olivia pra cá, Tanta Luíza pra lá e a interrogação terrível na minha cabeça de criança. Porque a mãe chamava elas de Tanta?
Ela sempre nos ensinou que Tanta, era para se referir a alguma coisa com grande quantidade: Tanta agua, Tanta chuva, Tanta laranja, etc. Mas, e agora? Será que as tias eram Tanta coisa assim? Então, logo que elas foram embora, a noitinha quando estávamos a mesa, em família, perguntei: Mãe, porque a senhora chamava elas de Tanta? Ora filho, porque Tia em alemão se fala Tante e a vó e as tias falavam alemão com a mãe delas e assim ficou de costume. Os Tios elas chamam de Onkel.
Sergio Cunha - 16/01/2018.

O CÓRREGO:
Córrego em alemão se diz, Bach. Certa vez (+/- 1963), a Ceia de Natal (Weihnachtsessen) foi na casa da tia Níde, no Reino do Garcia. Todos da família foram jantar lá. Tios, tias, primos, primas e convidados. Antes, porém, a tia pediu para nós, os meninos, já mais crescidos, irmos buscar as tortas, pastelão e outras guloseimas, na casa da confeiteira que morava logo ali embaixo na rua da Gloria, próximo da casa da dona Cassiana. Fomos então, o Nino, o Reginaldo, eu e o "gordinho", que assim era apelidado, o Osnildo, filho da dona Alói. Como diz o alemão, "A xente andava sempre xunto", éramos muito unidos.
E lá fomos nós, era pertinho, uns 800 metros. Traríamos nas mãos, cada um o seu. Veículo não tinha, só bicicleta (Fahrrad). Uber, acho que somente em Floripa. Então, era a pé mesmo. Chegamos na casa da senhora, pegamos as encomendas e voltamos. Ali, naquele lugar onde era a casa da dona Cassiana, tem um canal, um córrego que atravessa a rua da Glória, vindo da rua Belo Horizonte. Atravessa ali e une-se com o córrego que vem lá de cima da Vila. Passa por baixo do Terminal de ônibus, por baixo da Coteminas e desemboca no ribeirão Garcia.
A prefeitura (Rathaus) fez aquele canal de concreto, mas não fez um corrimão, uma mureta para segurança, nada. Nas cabeceiras do canal só tinha um meio-fio com uns 30 cm de largura e 10 cm de altura, que as crianças adoravam atravessá-lo, para desafiar o equilíbrio, pois, além do pequeno meio-fio, já despencava para o córrego, uns 2 metros abaixo, talvez 2,50 m. O córrego era rasinho com 10 ou 15 cm de profundidade de água.
Viemos os quatro de volta, cada um com a sua encomenda, rindo muito, gargalhando, falando brincadeiras, gurizotes juntos, sabe como é. Ao passar ali no canal o Reginaldo quis passar na beiradinha, no meio-fio. Quando estava no meio do canal, ao mudar o passo esquerdo, errou o meio-fio e o pé passou direto em direção ao córrego. Baaahh, caaara... ele foi com tudo. Ele desceu, a torta subiu um pouquinho e já desceu atrás dele. Tudo pra dentro do córrego.
Meeeeeu pai...! Uns gritos, uns choros, uns risos e levantou-se o Reginaldo, que deu umas sacudidelas, algumas lamúrias e uma torta a menos. Continuamos para casa, para festa, explicar o ocorrido e dar um tempinho para o povo adaptar o estomago com a comida restante. Felizmente o Anjo da Guarda o protegeu e saiu somente com pequenas escoriações. Coisas que acontecem com quem é vivo.
Sergio Cunha – 11/12/2017
O GRANDE SAPO:
Sapo. Em alemão se diz FROSCH. Em português distinguimos, sapo da rã.
Muitos anos atrás minha avó (Großmutter) e minha mãe mandaram eu e o Nino buscar alguma coisa que precisavam, na casa do tio Júca. Eu tinha 4 ou 5 anos de idade e o Nino tinha 7 anos. O Nino foi um menino (Junge), ainda bebê, que minha avó adotou como filho, portanto, irmão de adotivo de minha mãe e tios(as).
Ele era muito alegre (fröhlich), divertido, saltitante, moleque mesmo. Fomos criados juntos desde que nasci até uns 6 anos e dessa forma, nunca o vi como tio e muito mais como irmão. Mora até hoje na casa da tia Helena. Elas nos mandaram ir e lá fomos. Era um dia de verão (Sommer) e estava já escurecendo. Saímos correndo. Tínhamos de caminhar uns 150 metros até chegar à casa do tio Júca.
Há uns 20 metros da casa (Haus), o Nino que ia disparado na frente, deu um pulo, na rua, e gritou: "Olha o sapo". Meeeu amigo! Aquilo ali foi a gota. Parei instantaneamente, travei e comecei a gritar e chorar. Ele, do outro lado do sapo, me instigava: "Pula! passa correndo pelo lado, vamos seu molenga!" Mas não dava. Eu estava apavorado (erschrocken). Completamente travado.
Na minha insegurança e aos meus olhos (Augen), aquele sapo era do tamanho de um Fusca, um verdadeiro dinossauro. Diante da minha gritaria e choradeira, para me acalmar, só mesmo a presença dos meus tios (Onkel), que atônitos correram para me "salvar".
Lembranças de infância que marcam nossas vidas. Saudades!
Sergio Cunha - 31/12/2017

QUEPE OU BOINA:
Quepe ou Boina em alemão se fala Barett. Quando eu era criança, lá naquele reino que lhes falei, logo que foi possível pentear meus cabelos (Haare), pronuncia-se quase "Rrarre", minha mãe começou a cultivá-los. Meeeu, ela adorava penteá-los e fazer cachinhos. Fazia dois rolinhos em cima e mais outros tantos rolinhos ao redor da cabeça (Kopf). Acho que ela queria fazer meus cabelos "parecidos" aos cabelos do Wolfgang. O Wolfgang Amadeus, aquele que compôs aquelas sinfonias, vocês sabem não é?  . Eu odiava aquilo.

Uma vóz zinha me soprava que aquilo não caía bem pra mim. Mas...mãe é mãe (Mutter) né! Aos meus olhos de hoje, sabe que ficava bonitinho!!! Modéstias a parte, eu era bem lindinho.  Ela me dizia que eu não ficava no chão. Sempre no colo das tias e tios , que moravam na mesma casa ou bem próximos da casa da vovó. Era o neto (Enkel) favorito da família. Bem... era o primogênito. O primeiro neto da minha avó (Grossmutter). O segundo, o Reginaldo, nasceu somente quase um ano e sete meses após. Então...sabe como é!

Mas eu odiava aquele penteado e um dia, tinha uns cinco anos de idade, decidi por fim aquilo que tanto me martirizava. Todos estavam fora, no quintal da casa. Peguei uma tesoura (Schere), fui ao banheiro, coloquei uma cadeira em frente do espelho (Spiegel) e... foi dois créus. Cortei fora os rolinhos.

Depois fui ao guarda roupa e peguei um quepe de soldado que era do meu tio Nande e coloquei na cabeça. Pensei comigo: "Assim, quando a mãe voltar ela nem irá perceber". Mais tarde quando ela voltou do trabalho me perguntou: Porque colocasse esse quepe de soldado? Aah mãe, achei tão bonito esse quepe do tio Nande! Ela falou: Aah, então tá. Vem cá, vamos pro banheiro (Badezimmer) que vou te dar banho!   Hein??? Uuaauu, começou a me subir um calorzão! Quando ela tirou o quepe, vocês imaginam né? Ela chorou!

Aí...fazer o que? Levar ao barbeiro (Friseur) que naquela época era só o que tinha, não existia ainda "cabeleireiro", e acertar o corte. Porém, já nesse ano (1956) estava nascendo minha primeira irmã (Schwester), a Cida, e então era só questão de um tempinho para os cabelos da nova bebê crescerem e a mãe logicamente, colocou em ação todo o seu próprio conhecimento de "cabeleireira". Hoje não sou aquele "arroubo" de beleza, mesmo porque, meu corte de cabelo é bem rasinho. Só que a gente vai conversando...e as ideias vão pipocando. Então penso: "Será que não seria o caso de deixar as "madeixas" crescerem até ficarem iguais ás do Wolfgang? . Pobre mãe! Onde você estiver, beijos.  Te amo! (Ich liebe dich!). Saudades!
Sergio Cunha - 27/01/2018
Foto: Acervo Sergio Cunha
O TAPUME:
A antiga Artex é separada da rua Emilio Tallmann pelo ribeirão Garcia. Em 1956/57, ali onde as águas lambem as terras da empresa, tinha uma barragem no ribeirão, que todos falavam “o tapume da Artex”. Era inclinada uns 30 graus e com uns 3 metros de altura, com a finalidade de represar, facilitando a coleta de agua para a indústria.
Quando fomos morar no Bêco Tallmann, nos meses de verão meu pai ia na barragem a noitinha e andando sobre ela, pegava simplesmente com as mãos, cascudos que se fixavam sobre a superfície de concreto e se alimentavam do limo que nela crescia e também subiam para a parte superior, alcançando o leito mais profundo do ribeirão. E olha que eram cascudões, com 30, 40 centímetros de comprimento. Delícia! Mas como tudo que é bom dura pouco, os cascudos foram diminuindo na mesma proporção que os pescadores foram aumentando.
Na barragem, bem pertinho da fábrica, via-se cardumes de piabinhas saltando para fora da agua, tentando subir a inclinação e chegar a parte superior. Essa era a hora que pescadores lançavam suas tarrafas para pesca-las.
Nos dias mais quentes de verão, principalmente aos sábados, íamos para o tapume tomar banho e brincar nas aguas, que naquela época eram limpas e cristalinas. Juntava-se a vizinhança toda, crianças e adultos, além de pessoas que moravam bem mais afastadas, do bairro da Glória, do bairro Zendron . A altura da água media uns 80 centímetros, talvez 1 metro nos lugares mais profundos. Da beirada do barranco vínhamos correndo e pulávamos na “piscina”.
O Sr. Rolf Zeiler (diga-se: Záila), nosso vizinho, trabalhava como eletricista na Empresa Industrial Garcia e na sua casa, consertava eletrodomésticos, ferros de passar, motores, chuveiros. Aliás, chuveiros daquela época, para abri-los e consertar, tinha que remover uns oitenta parafusos. Ele era um homem bem alto com 1,80 m. a 1,90 m. De pé, dentro do ribeirão, ele ficava com água pela cintura. Nós as crianças ficávamos com agua pelos ombros.
Um de seus filhos era o Mirelo que deveria ter 3 a 4 anos de idade. O Sr. Rolf pegava o menino e arremessava para cima como se arremessa uma perereca. O menino subia e descia no ar, oscilando braços e pernas, submergia na agua e em seguida emergia, soltando agua por todos os orifícios possíveis. Mal dava tempo do guri respirar e já se iniciava outro “arremesso de criança”, repetindo-se isso por 10 a 15 vezes, até o homem cansar-se.
A entrada principal para o Beco Tallmann era feito pela ponte (veja lado direito na foto), que ficava ao lado da Cooperativa da E.I.Garcia. Debaixo da ponte tinha uma grande laje de pedra e várias vezes vimos o Sr. Rolf mergulhar com uma fisga na mão, para fisgar cascudos que se fixavam na laje.
Naqueles dias mais quentes de verão, era comum ver-se jovens pulando do alto do corrimão da ponte nas aguas do ribeirão para banhar-se. Conforme as empresas E.I.Garcia e Artex prosperavam, aumentava também a poluição, chegando ao ponto de, diariamente se ver águas completamente coloridas oriundas das tinturarias das empresas. Com efeito, as pessoas também deixaram de banhar-se nelas.
Essa ponte que ligava a rua Emilio Tallmann com a E.I.Garcia, foi construída em 1961 e demolida em 1982, conforme relatado no Blog do Adalberto Day. Nunca aconteceu acidente grave, pois tanto uns como outros estavam bem treinados. Graças a Deus, estavam todos protegidos pelo Anjo da Guarda.
O Mirelo cresceu e ficou bastante conhecido no bairro. Pegava sua caixa de isopor e saía caminhando pelas ruas vendendo picolés. Conta-se que quando uma criança ou mesmo um adulto lhe falava que não tinha dinheiro naquele momento, ele vendia mesmo em confiança, que podia receber o valor num próximo encontro casual. Todos gostavam muito dele, pois era pessoa de bom caráter, dócil, amigo, comportado, honesto, trabalhador. Recebeu muitas homenagens quando faleceu tragicamente, vítima de atropelamento, na rua Amazonas em 28/10/2017.
Foto: Acervo Adalberto Day (Rua Emílio Tallmann e Tapume da Artex)
Foto: (Mirelo)
Sergio Cunha - 21/02/2018

OS DOCES NATALINOS:
Minha mãe não falava em alemão conosco, filho, filhas e nosso pai. Nem com suas irmãs e irmãos. Mas ela falou com sua mãe e sua avó que era da Alemanha. Lembro que perguntava para ela sobre algumas palavras, tipo, dedo (Finger), nariz (Nase), olhos (Augen), boca (Mund), ouvido (Ohr), e ela respondia tudo, em alemão. Mas como na cidade predominava o idioma português, então, não aprendemos o alemão. Na época de Natal, tradicionalmente ela fazia os saborosos doces natalinos (Weihnachtssüßigkeiten) e a gente gostava de ¨ajudar¨. Na verdade gostávamos mais de beliscar e comer pedacinhos de massa cru. E ela para não perder tanta massa falava: “Não comam massa cru pois isso dá dor de barriga”.
Quando ela cortava a primeira fatia de um pão caseiro, perguntava: Quem vai querer a “crustinha”? . Crustinha? E agora? De onde a mãe tirou essa palavra? Mãe, oh mãe! Porque a senhora falou “crustinha”? Aah, porque ela é a primeira e a ultima fatia do pão. É a casquinha, mais torradinha.
A maioria das crianças evitavam comer porque era mais durinha. Então ela dizia que “quem come a crustinha, fica com as pernas bem mais grossas e fortes”. Recentemente é que descobri que a palavra tem origem no idioma alemão “krusten” e significa crosta, casca.
Um dia a gente estava tomando um cafezinho da tarde com docinhos pintados e também daqueles docinhos de araruta. Eu tinha uns 13/14 anos, minhas irmãs mais novas e dois amiguinhos, vizinhos. Então começamos a perguntar pra mãe, significados de palavras em alemão: Mãe, como se fala passarinho? Ela respondia: Vogel. Como se fala cachorro? Hund. Como se fala gato? Katze. Como se fala porco? Schwein. Como se fala galinha? Huhn. Como se fala boi? Ochse. E outra criança perguntou: Como se fala vaca? Kuh.  Raaapaaaiz, foi um estardalhaço de gargalhadas só . Todos caíram em risadas. Ela disse: Ééé, mas é isso mesmo, só que se escreve com K-U-H e não é o que vocês estão pensando.
Feliz Natal e Prospero Ano Novo a todos. (Frohe Weinachten und Gutes Neue Jahr).
Sergio Cunha - 23/12/2017

quinta-feira, 8 de março de 2018

- Ortografices”


09/02/2018 | N° 14370
CAO HERING
 O Colunista escreve todas as Sextas-feiras no Jornal de Santa Catarina
O texto abaixo  está na integra conforme enviado pelo autor.
 “Ortografices” 
Dia desses encontrei ali perto do Café Blumenau o ex-colega colunista do Santa Gervásio Tessaleno Luz. Levava a tiracolo alguns exemplares do seu último livro e já foi perguntando se trazia uma caneta (não tenho o hábito), para me presentear com um exemplar. Ainda não tive tempo de ler Máximas do Barão de Itapuí, certamente uma deliciosa coleção de crônicas reunidas pelo professor em seus 52 anos observando gentes. O Tessaleno também é uma dessas velhas e atentas onças das redações barulhentas que o jornalismo digital vem esnobando com suas notas sintéticas e fotos em altíssima definição.
   Com mais um amigo à mesa, pedimos uma caneta à moça do café. Depois da dedicatória e amenidades, não deu outra, malhamos “a atual conjuntura” e “tudo isso que está aí”. Dali fomos aos velhos e saudosos mestres de português, tão decisivos em nossas quedas literários. Os caras nos legaram a curiosidade, o encanto pela mecânica da língua e o prazer em devorar textos bem construídos. Eu sei, são manjadas reminiscências, no entanto, revivê-los, inclusive em seus gestos e tiques, é sempre uma fantástica e insubstituível máquina do tempo.
   Gervásio pousou a xícara e despediu-se apresado, não sem antes lançar praga aos imbecis responsáveis pela última, desnecessária, desastrosa e maldita reforma ortográfica. E avisou, levantando o indicador: “as crônicas em Máximas do Barão de Itapuí ainda escritas sob a regência da ortografia anterior, fiz questão que permanecessem todas com a acentuação original, viu?!” Legal essa do Gervásio. Achei um elegante protesto contra os inúteis acadêmicos, lusófonos, aos quais deram poderes para praticar um desmando de tal calibre.
   De volta ao escritório, abri o arquivo do “acordo” pela enésima vez, só para confirmar minha irritação com esse bando de desocupados, signatários do disparate. De novo: por que extraíram sem um bom argumento o acento agudo da terceira pessoa do singular do verbo parar (para) tornando sua grafia idêntica à preposição? Por que fulminaram os acentos de grupos de palavras onde coabitam vôo, idéia e feiúra. Nas regras com os hífens, então, cometeram insana distorção. Foi só pra sacanear as turmas dos concursos públicos e do Enem?
   E o que a sábia comissão teve contra o trema, esse útil e imprescindível diferencial? O caro e paciente leitor sabe como se define a pessoa que fala cinco idiomas? É o quinquelíngue. Pois é, em favor da pronúncia, não seria mais confortável grafar qüinqüelíngüe? Ah... entendi! A massaroca toda foi criada para haja uma ortografia unificada em todos os países de língua oficial portuguesa. Pra quê? Para eu ler o jornal sem me atrapalhar se um dia for ao Timor-Leste?
   Concordo, Gervásio. Também não consegui assimilar as “ortografices”. Troço chato.

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Delícias de crônicas
Por Gervásio Tessaleno Luz
Santa Catarina teve e mantém um time razoável de cultores do gênero crônica. Na Capital, não são poucos. Aqui, na região do Vale, continuam nascendo. O último que descobri foi Luiz Carlos Nemetz, que deveria reunir seus textos, divulgados até agora somente pela internet, em livro. Dele iremos falar em semanas por sua última publicação: Orador completo – Técnicas, exercícios e dicas para falar bem em público.
Demos boas risadas lendo Oh! Casos e delícias Raras, de Raul Caldas Filho. Trata-se de uma continuação de Oh! Que delícia de Ilha, já devidamente consumido anos atrás. O autor a quem o irreverente e gozador Beto Stodieck grafava Raul Pêssegos em Caldas, nasceu em 1940 em São Francisco do Sul, mas menino ainda fixou-se em Florianópolis.
De lá só saiu por dois anos para ser repórter da revista Manchete, no Rio de Janeiro. Começa a obra citando frases dos manezinhos senador honorário Alcides Ferreira (“A cidade cresceu tanto que já não se vê mais ninguém nas ruas”.) e o compositor popular Zininho (“Jamais a natureza reuniu tanta beleza, jamais um poeta teve tanto pra cantar.”)
No livro em questão, o jocoso e inventivo espírito ilhéu mais uma vez se manifesta. São bem humoradas crônicas e relatos – retratando costumes e satirizando “maus costumes” – que ao lado de uma nova seleção de casos, anedotas e “manezadas”, revelam costumes citadinos, tendo como cenário a luxuriante paisagem da Ilha de Santa Catarina.
Eis algumas que o autor chama de anedotário da Ilha:
- Ao ser surpreendido por um grupo de moças  à saída do banheiro feminino, num movimentado bar da Beira-Mar, aquele convicto machista não teve outro jeito a não ser proclamar, enquanto fazia um afetado trejeito: - Não me levem a mal meninas, sou gay.
- E quando o maître daquele luxuoso restaurante perguntou à elegante “socialite” qual era o seu prato predileto, ela respondeu com afetação: - O meu prato predileto é porcelana Schmidt.
- Passeava pelo centro da cidade um ceguinho e um inválido sem os dois braços. Aí diz o inválido: - Olha que mulher gostosa! Responde o ceguinho – Então passa a mão nela!
- De um biritum para outro biritum: - Cheguei em casa tão “ferrado” ontem, que até os meus cachorros avançaram em mim.
- E ao chegar a uma solenidade num município da Grande Florianópolis, assim foi saudado o então governador Konder Reis por um locutor local: - Acaba de adentrar ao recinto Sua Majestade o governador Antônio Carlos Konder Reis. Ao ouvir isso, o governador aproximou-se do locutor e indagou: - Você está me achando com cara de Rei Momo?
O autor é professor e escritor em Blumenau.

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